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Editorial – Encômio para mim mesmo: um vagabundo escritor

Nada melhor que dedicar este “Dia do Trabalho” – no qual, aliás, pouquíssimos trabalham, para reservar uma singela e imorredoira homenagem a este vagabundo de plantão, de quem poucos se lembram senão para lembrar o epíteto cravado neste peito eivado de mágoas e nesta cabeça mais que pensante, cravado, como dizia, pelos algozes da inteligência humana, desde os meus 16 anos, quando passei a incomodar o establishment peruibano.

Dizer que elogio em boca própria é vitupério é repetir chavão pouco adequado à arte redatorial jornalística. Mas sou obrigado a cometer este “crime” diante dos mais sérios manuais de redação e estilo. Cometo-o e o confesso: Não há em Peruíbe, ainda hoje, mais que meia dúzia, ao menos do que são ou se fazem conhecidos, que podem se equiparar ao plumitivo que escreve estas linhas no que tange à facilidade de tecer linhas com as palavras, e de reduzir fatos a três ou quatro parágrafos, dando assim nascedouro à notícia. E menor número ainda há dos que, além de saberem escrever com a mesma maestria com que escrevo, conhecem como conheço a história político-administrativa de Peruíbe de cinquenta anos para cá.

Brinco com essa facilidade. Atribuo isso a um dom divino. E, quando me cobram algumas linhas sobre determinado tema, logo pergunto: você quer em prosa ou em versos? Aquém e além do donativo que me foi dado pelo bom Deus, há o talento. O talento se diferencia do dom na medida em que, enquanto este é inato, aquele – o talento – ainda que também oferta de Deus – requere dedicação e empenho para que ele cresça e se reproduza. Você pode não ter um talento para escrever, mas tem talento para a leitura; logo, se você dedicar este talento à leitura perene de bons livros, é mais que certo que um dia terá acrescentando ao seu vocabulário natural tantas palavras, que não terá dificuldades para o discurso, para a oratória, para o expressar-se – inclusive em público; e, de resto, poderá até mesmo vir a saber escrever.

Consoante isso posso afirmar para cada dos que – como costumo repetir – têm paciência para me ler – que jamais relaxei para com estes meus talentos inatos, quais sejam os de pensar, ler, perscrutar, duvidar, pesquisar, interpretar e, por consequência direta, escrever. Meus talentos assim estão a serviço do meu dom, e meu dom procura recompensar o esforço de dedicação de meus talentos escrevendo. Se leio até bula de remédio e dicionários de línguas que dificilmente virei a dominar, poderia dissertar, senão com domínio científico, ao menos com calor da narração romanceada, até mesmo uma tese de doutorado em física quântica. Exagero? Não! Não duvidem, pois, os que me conhecem e sabem o quanto gosto de desafios.

Desafiar-me ao duelo das palavras, notadamente a escrita, já é de sobejo sabido por todos nesta terra que já foi de Pero Correa, de Sodré, e que hoje é de todos e de ninguém ao mesmo tempo, não valer a pena. Se para René Descartes havia sentido em descobrir a existência no pensar (“Cogito, Ergo Sum”), eu estenderia a lógica cartesiana para o também seu “Dubito, Ergo Cogito, Ergo Sum” – Eu duvido, logo penso, logo existo. Muito além de duvidar e pensar, para mim, escrever é a razão da vida. Sendo assim, seria razoável a paródia: “Escrevo, logo existo”.

A dificuldade latente está na conciliação que a sociedade tem que ter – ou que deveria ter que ter – entre a arte e o trabalho. Não é de hoje que o artista que vive de sua arte, transformando-a, portanto, em seu modo de vida, e, por relação, em seu trabalho, em sua fonte de subsistência, é tido como vagabundo.

O épico “14 anos”, de Paulinho da Viola, definiu este sentimento que persegue aqueles que teimam viver ou sobreviver das artes. Afinal, qual o pai que não quer ver um filho “estudar filosofia, medicina ou engenharia”? Sim, para a sociedade contemporânea e capitalista, é preciso que das proles ressurjam doutores!

Paulinho da Viola descobriu que, afinal, seu pai tinha razão quando via “um samba esquecido, o sambista esquecido – o seu verdadeiro autor”, e lamenta: “eu estou necessitado”, para concluir: “mas meu samba encabulado, eu não vendo, não, senhor.”.

O famoso músico carioca pintou com a maestria de um da Vinci o quadro deste misto de mágoa dos sentimentos e da satisfação da alma que nutrem e consomem ao mesmo tempo centenas – com certeza milhares – de artistas de todas as artes, desde as plásticas à música, do cinema ao teatro, da dança à literatura.

O agravo está em saber que, no Brasil, de modo muito especial, ousar ser artista e relegar-se a correr o risco da sina do anonimato e, mais cruel ainda, do ostracismo.

Ainda que me sentindo igualmente artista, e bem mais escritor que jornalista propriamente dito, e ainda que prefira recolher-me aos degraus mais baixos da escada de uma fama que não é outra que aquela do temor que os usurpadores da coisa pública têm de mim, ainda assim ressinto-me bastante pela ausência do reconhecimento pelo que fui, pelo que sou, pelo que represento para Peruíbe, para sua Cultura e para sua História.

Não reclamo por estas linhas louros e troféus. Reclamo o respeito e a dignidade que todos deveriam ter pela minha arte que, como entendo, é o meu trabalho. Se é respeitado e digno aquele bate seu cartão de ponto diariamente numa empresa pública ou privada, se é digno e respeitado aquele que empreende, que comercia, que presta serviços como profissional liberal, por que não o ser eu? Só por que “só” escrevo?

Somente terão ideia da angústia que inspira este editorial aquelas pouquíssimas pessoas que, ainda que não podendo me ajudar financeiramente com um patrocínio, me param na rua para elogiar-me pelo que escrevi. Afinal, estes sabem que o que escrevi, escrevi. E escrevi, repetindo, como pouquíssimos por estas plagas escrevem.

Há os que acham que porque escrevo com a facilidade de um pescador caiçara a lançar a tarrafa em águas profusas de peixes, que tenho que vender o meu peixe barato, ou mesmo dá-lo de presente. Não faz muito tempo que um conhecido político de Peruíbe me pediu para escrever um texto para seu vídeo em homenagem ao aniversário da cidade. Fi-lo com rapidez e intrepidez, com a alegria de quem, afinal, fora lembrado. Cobrei um preço irrisório – e bem mais irrisório ainda para as posses do contratante, mas estou esperando a receber “até ontem”, como dizia meu falecido pai. E querem saber por que ainda não me pagou? Não é por falta de dinheiro ou de oportunidade. É porque ele também faz coro a todos os que nessa cidade se juntam para impor a pecha de vagabundo não só em mim, mas em todos os demais colegas jornalistas da cidade.

Farta-me tudo isto. Completo meio século de Peruíbe em julho próximo. 43 dos quais escrevo a história e a política de Peruíbe. Sou um pensador político que, somente por isso, já deveria ser pesado a peso de ouro por políticos ou empresários que têm aspirações públicas. Mas não sou. Aqui em Peruíbe as pessoas olham só seus próprios umbigos. Os empresários têm verbas para suas orgias, mas não investem na publicidade de seus próprios empreendimentos; e o políticos preferem manter-se equidistantes da Imprensa já que se lançam a serem useiros e vezeiros em fazerem na vida pública o que fazem na privada.

Há uns 10 anos atrás perguntei a um então presidente da Associação Comercial de Peruíbe quando ele gastava por mês com suas despesas pessoais (cigarro, cerveja, combustível queimando pneu entre um boteco e outro). Respondeu-me ele à época que bem mais de mil reais. Ao que perguntei: e você não tem coragem de investir cinquenta reais por mês divulgando seu negócio em meu jornal? A verdade é que ele pouco estava se lixando para o sucesso de sua empresa como soe acontecer com nove entre 10 empresários locais.

Dos políticos poderia eu esperar alguma coisa? Ledo engano. Se Mário Omuro, meu amigo de infância, a quem ajudei a tornar-se prefeito, por quem abandonei minha carreira como teólogo, para cuja faculdade nunca mais consegui retornar, mesmo depois de quase quatro décadas, se este mui amigo quando prefeito não se lembrou de mim, quem mais se lembraria? Não. Ninguém! Afinal, quem teria obrigação de fazê-lo? Ninguém, evidente!

Ora, se a não obrigação pelo sustento de um vagabundo escritor da cidade somente se sustentaria se fosse o caso de estarmos tratando de um escritor vagabundo, ainda assim, reclamo repensarmos todos na busca por extirparmos de nossas mentes e corações este preconceito que todos têm por aqueles que escrevem, cantam, pintam, dançam, tocam, fazem arte de qualquer gênero e cor, fazem circo de qualquer palco e dor.

Quando a mim, se lembrança externa ou de outrem não me vem, prefiro o vitupério. Antes o vitupério que o narcisismo. Afinal, eu até posso mesmo ser feio, mas escrever eu escrevo. E como escrevo! Vocês sabem disso. Não sabem? E, se escrevo, logo também sou um trabalhador que merece ser lembrado neste importante dia em que todos param de trabalhar quase que como um anseio à vagabundagem perenal.

Viva eu! Vagabundo escritor, sempre! Escritor vagabundo, jamais!

Washington Luiz de Paula

Banco do Brasil (Escriturário)-ESCRITURÁRIO
Banco do Brasil (Escriturário)-ESCRITURÁRIO

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