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Nós, os Batistas, e a ação social: 6 mil igrejas e 1.200 congregações sem ação … (social)

 “Não cuidais que vim destruir a lei ou os profetas: mas cumprir” Mateus 5.17.

Prof. Dr. Jorge Schütz*

Com igrejas formadas tão somente por adultos convertidos e batizados por imersão, desejosos em constituir comunidades irrepreensíveis, Nós, os Batistas, alimentamos cinco ideais à semelhança de Menonitas e Quaker, também radicais, a saber: alienação do mundo; repúdio aos prazeres da carne, desligamento de todo o gozo que a vida possa oferecer; busca da perfeição e santidade pelo afastamento de tudo que induza ao pecado e o repúdio sincero a tudo que diz respeito ao mundo mediante uma conduta ascética, desta forma construindo um imaginário de que os batistas são apolíticos e até alguns, anti-políticos.

Entretanto, a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira preceitua que: “(…) os batistas, baseados nesse princípio da cooperação voluntária das igrejas, realizam uma obra geral de missões, em que foram pioneiros entre os evangélicos nos tempos modernos; de evangelização, de educação teológica, religiosa e secular; de “ação social” e de beneficência. Para a execução desses fins, organizam associações regionais e convenções estaduais e nacionais (…)”

Por um lado, a considerar nossas origens, nos pautamos por uma expressão social apolítica, por outro, nos manifestamos sobre a PLC 122/2006 num texto bastante conservador e embasado por movimentos fortes fundamentalistas como os liderados pelo pentecostal dissidente Silas Malafaia que demarcou a interpretação e possível aplicação da lei sobre as igrejas evangélicas, e levou no bico dezenas de milhares de crentes, inclusive os batistas, numa roubada. Razão pela qual nosso documento é contraditório em seu conteúdo, pois afirma o direito às minorias, mas nem tanto, quando na verdade Nós, os Batistas, deveríamos ser os paladinos desse discurso, uma vez que a liberdade de consciência é tema intrínseco à nossa natureza de fé prática. E nesta toada ingressou-se no discurso do deputado evangélico Marcos Feliciano, um líder notadamente destemperado, mas que por suas posições homofóbicas e vida parlamentar contraditória e repleta de esquisitices, é conduzido nos ombros dos fieis como paladino da verdade. E há batistas que entram nesta onda.

Não caberia a Nós, os Batistas, por nossa história e valores, andar a reboque de modismos, mas teríamos elementos e consistência para iniciativas de grande envergadura em favor do Brasil. Mas, se não bastasse respirar a sombra de Silas Malafaia e Marcos Feliciano, andamos a reboque na Igreja Renascer com a tal “Marcha para Jesus”, movimento nascido na Inglaterra na década de oitenta, importado e adaptado pela Igreja Renascer, sendo ela quem dá cadência e direção à marcha, sempre no sentido à “direita volver” do fundamentalismo moralista. Uma programação que reúne pessoas de boa fé, algumas com a fé, mas que entre outras coisas é um contraponto às manifestações da parada gay. E nesta onda das marchas de direita estão batistas órfãos e carentes por inserção social, gastando sola de sapato e gritando palavras de ordem, qual massa de manobra.

Onde estão as associações regionais, as convenções estaduais e nacional para colocar a ação social como razão de ser e alma de seus fins? A visitar o site da CBB, no ícone Ação Social, encontramos duas possibilidades: pedidos de oração e meio de cadastrar programas sociais de igrejas, além de oferecer várias assessorias. Ora, oferecer assessoria não é fim, o fim é realizar um grande movimento, uma proposta de ação social, que promova a justiça social, que levante a voz em favor das minorias, que grite contra a corrupção nos governos, sejam eles de direita ou de esquerda. Que denuncie a desigualdade social, que seja a voz daqueles que perecem sem assistência de saúde, daqueles que choram sua perdas vítimas da violência. Que aponte a corrupção no Judiciário e nas forças de segurança pública. Que desafie partidos políticos e líderes partidários, que seja a voz dos que não têm voz, que traga à memória de todos aqueles/as esquecidos/as às margens plácidas. A pátria amada não pode ser idolatrada, salve! salve!! – pastores podem, mega templos podem, cargos e funções denominacionais podem. Onde estão os programas de ação de Nós, os Batistas, para a pátria amada, Brasil?!

Não restam dúvidas de que há inúmeras igrejas por este Brasil afora realizando a missão na sua integralidade, pastores e pastoras participando de conselhos tutelares, alguns líderes comprometidos com a sustentabilidade, outros denunciando o consumismo e a acumulação de bens. Vozes fortes e solitárias, que hoje carecem de ecoar associadas a outras, cuja regência dessa grande orquestra deveria ser conduzida pela CBB, mas não é. Certamente é mais compensador reunir homens e mulheres de boa fama e bons costumes em assembleia e discutir se mulheres podem ou não assumir funções pastorais. Quanta alienação!

Sim, há movimentos vivos entre os batistas ou de inspiração a partir dos batistas, sejam sazonais ou de ação continuada, e podem ser citados pelo menos três em caráter ilustrativo, mas existem outros. Em 1995, quando a seca assolou o Nordeste, no Ceará, na região de Orós, famílias da região partilharam de vinte e seis toneladas de alimentos reunidos, principalmente por igrejas batistas do Vale do Paraíba. Em 1998 iniciou-se um programa, ainda ativo, a partir da Organização da Sociedade Civil, com inspiração na missão integral, denominado Movimento Vida, sem vínculo com o poder público, mas que oferece assistência odontológica e médica em setores de extrema pobreza nas regiões de São José dos Campos. Em 2009, um batista com sua família, constituiu a Missão Espaço Jovem – EJ, e decidiu investir recursos próprios em dois ônibus e equipou-os para servir comunidades carentes por meio de programas de educação, intervenções em situações de risco, em zonas de alagamentos e/ou deslizamentos, assistência odontológica e médica. Ações assim, como outras, realizadas sob a iluminação da Missão Integral, privilegiando a presença, a proclamação e a partilha.

Tais e quais esses há incontáveis manifestações e ações de batistas que prescindem de qualquer recurso ou ideologia da CBB, que fazem a diferença em situações específicas, mas que poderiam participar de um projeto mais abrangente em nível nacional, se houvesse fôlego e vontade cristã e política. Pois, na verdade, não somos apolíticos – somos e fazemos política, e política de direita, pois com o golpe militar de 1964, meio século celebrado recentemente, as lideranças protestantes de diversos matizes se alinharam ao regime militar, dentre elas personagens oriundos de nossos quadros que assentaram nos bancos da Escola Superior de Guerra e receberam doutrinação, obviamente, para repassá-las às comunidades. (SILVA, Nilo, p.39).

Entretanto, nem todos seguiram a cartilha proposta, pois aspiravam por justiça social, tema que é sinalizado na entrevista ao ex-presidente João Goulart – Jango, enquanto no exílio, feita pelo historiador Foster Dulles em 15 de novembro de 1967, em Montevideo e publicada pela Folha de São Paulo em dois de abril 2014 caderno A-10. Nela Jango relata que sua pretensão era tirar o Brasil da ignorância, pretendia a autonomia nas decisões internas do país sem interferências do governo norte-americano, e que de maneira oportunista, criou-se uma síntese entre o termo “justiça social” e “comunismo”, desta forma habilitando forças nacionais com incentivo e apoio logístico internacional em promover o golpe de 31 de março de 1964, que fora efetivado mesmo no dia 1º de abril, dia da mentira.

Destaca-se o ilustre Pastor Hélcio da Silva Lessa, que, em seu livro Ação Social Cristã, homenageou Walter Rauschenbush, teórico batista e um dos articuladores do Movimento do Evangelho Social, e reuniu significativo texto narrando os tempos na década de 60 em que os batistas brasileiros foram desafiados a um posicionamento teológico-político-social, apontando o discurso do Dr. Alberto M. Andrade como marco inicial desta visão desafiadora de mundo a partir do morro, como bem ilustra a capa do livro, a foto de um morro com casebres pendurados em sua encosta. Assim relata Hélcio S Lessa:

“Entre os batistas brasileiros, talvez tenha cabido ao grande servo de Deus que foi o Dr. Alberto Mazzoni de Andrade, a honra de erguer, pela primeira vez, essa bandeira. Certa feita, perante a 45ª Assembleia da Convenção Batista do Distrito Federal (hoje, Guanabara), quando lhe coube proferir o discurso de encerramento, escolhe como tema ‘O Ministério Social’, e profeticamente exorta e vaticina: ‘o verdadeiro Cristianismo não deixará de atentar para as suas responsabilidades sociais pelo simples receio de que o chamem sumariamente de evangelho (social gospel) ou quejando’”. (p. 22)

E continua Hélcio da Silva Lessa apontando como o assunto caminhou dentro da Convenção Batista Brasileira, não sem tensões, ao tempo em que Castello Branco (64-67) e Costa e Silva (67-69) ainda discursavam que haveria retorno ao estado democrático de direito, o que sucumbiu com a junta militar assumindo o poder, e mergulhando o país numa história que já se sabe. É neste contexto que Nós, os Batistas, visualizamos espaços e meios de intervenção. Entretanto, desistimos da causa “do outro”, “do próximo”, “do social”, “da sociedade”. Desistimos do Brasil, como relata Hélcio da Silva Lessa:

“No âmbito da denominação Batista, no entanto, alguns eventos muito significativos ainda ocorreriam nesse campo. Um deles foi a criação, em regime provisório, de uma Comissão de Ação Social pela Convenção Batista Brasileira. Surgiu ela de uma proposição subscrita pelos pastores Hélcio da Silva Lessa, A. Antunes de Oliveira, Alcides Telles de Almeida, Ernani de Souza Freitas, Éber Vasconcellos, José dos Reis Pereira, Merval Rosa, José Lins de Albuquerque e David Malta Nascimento, aprovada pela 45ª Assembleia daquela Convenção, em Vitória, Espírito Santo, em 1968. Sem quaisquer recursos, cumpriu no seu primeiro ano um modesto programa de conferências sob o tema geral de “Cristianismo e Sociedade”. Após árdua “batalha” no plenário da 46ª Assembleia da CBB, em Recife, prossegue, por mais um ano ainda suas atividades. Promove um Ciclo de Estudos sobre “O Cristianismo e a Realidade Brasileira”, um simpósio sobre “Juventude Transviada”, e elabora um Plano de Ação para justificar a sua existência perante a 47ª Assembleia convencional, que, no entanto, suspende as suas atividades, deixando a matéria sobre a mesa para posterior decisão quanto à conveniência de uma tal Comissão no seio da Denominação. ” (p. 23)

No texto há a indicação da data de 1968, ou seja, quatro anos após o golpe militar, e já sinaliza, pela tensão da discussão na assembleia convencional, que a abordagem do tema vai congelar, e congelou. A pergunta que está sobre a mesa persiste: Batistas, é “conveniente” a ação social no Brasil do século XXI tendo como horizonte a consolidação da justiça social? De que nos servem organismos institucionais congelantes que encastelam o poder, sem produzir e sem articularem os sinais do Reino de Deus que produzem vida? Como indica o Evangelho: “por que fez grandes coisas o Poderoso – a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem. Com seu braço agiu valorosamente, dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos. (Lucas 1)

“Dá-nos a graça de deixarmos esta terra melhor do que a encontramos; a construir sobre ela cidades de Deus, nas quais o grito do sofrimento desnecessário cesse por completo, e a colocar o jugo de Cristo sobre a nossa vida para que possamos servir e não destruir. Levanta o véu do futuro e mostra-nos como será a nova geração: para que nossa cobiça seja freada e assim possamos andar no temor daquele que é Eterno”. (Orações por um mundo melhor, Rauschenbusch, p.80).

(*) Jorge Schütz é pastor batista formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, doutor em Ciências da Religião e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista.

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