POUSADA GAIVOTAS
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Hoje eu estou particularmente aborrecido…

POUSADA GAIVOTAS

Pois é. Amanheci assim hoje: aborrecido. Aliás, ando aborrecido há bastante tempo, mas algo me diz que a gota d’água teimou em cair no meu copo de amarguras e desencantos justamente hoje.

Não há um motivo especial para ser “justamente hoje”. Não há nada de especial hoje, a não ser que este é um dia igual aos demais que deveriam ser – quase como que numa obrigação da vida – especiais. Sim. Especiais no sentido de nos mover ao trabalho diuturno, de nos indicar o caminho do sucesso, de nos abrir perene oportunidade ao sorriso e à alegria de viver.

Deveria. Mas não é. Não tem sido. E não tem sido só no curso destes quase três anos que teimo em lutar por este meu ideal de trabalho – sim, de trabalho! –; mas não tem sido assim também pelos 35 anos que me dedico ao ofício da notícia em Peruíbe, e aos 41 que me sacrifico pela política municipal.

Desde os 15 anos quando me atrevi a contrariar meu pai para começar a mostrar as mangas de fora em ser “do contra”, passei a dar motivos para ser criticado até por minha própria família. Da crítica intrafamiliar ao vilipêndio da sociedade foi um pulo. Hoje, com 56 não sei de um tempo sequer que tenha sido pródigo para mim no sentido de incentivo à minha vocação, ao meu trabalho e à dedicação com que tanto me empenhei por aquilo em que sempre acreditei.

Não sei onde está a gênese desta perseguição doentia que me imputam tantos e todos. Talvez na minha teimosia, talvez na minha obstinação, talvez na inveja dos que sequer sabem empunhar a caneta para escrever um verso de poema ou uma linha de prosa; mas é muito possível que esteja no fato de que poucos ou ninguém em Peruíbe acredite que escrever, seja um poema ou uma notícia, pintar um quadro, tocar um instrumento, transformar um pedaço de pau numa escultura, cantar, compor, enfim qualquer coisa que tenha a ver com a arte, seja trabalho. Também trabalho.

O drama que vivencio e do qual sou protagonista não é exclusivo meu, a bem da verdade. Paulinho da Viola já cantou este desencanto que os pais sofrem quando seus filhos se descobrem artistas, ao lembrar, em uma de suas canções, que “tinha eu 14 anos de idade quando meu pai me chamou. Perguntou-me se eu não queria estudar Filosofia, Medicina ou Engenharia; tinha eu que ser doutor!”.  E, não obstante Paulinho ter retrucado que “a minha aspiração era ter um violão para me tornar sambista”, o pai foi logo aconselhando: “Sambista não tem valor nesta terra de doutor!”. E sabe a que conclusão o grande sambista chegou? A esta: “E seu doutor; o meu pai tinha razão!”.

Nesta paródia a arte imita a vida. A dura realidade da vida de quem escreve, canta, compõe, ou faz qualquer coisa se metendo a ser “artista”.

Evidente que mesmo na arte alguns conseguem ser bem-sucedidos, e até não têm de que reclamar. Os exemplos existem tantos, e enumerá-los é desnecessário. Mas há muita gente que sofre, que chora, que é vítima de perseguições injustas, de calúnias mordazes, mas que teimam, que patinam, que ralam, que insistem tanto até que em uma hora qualquer, se aborrecem. E minha hora é esta.

E eu sou um artista! Lembro-me de quando criança quando desenhava e as pessoas e meus pais achavam graça da facilidade com que compunha traços no papel – e nas paredes! Pouco depois comecei a escrever versos, e não demorou em que logo achassem que eu tinha tendências homossexuais porque vinha me revelando poeta. Na igreja eu cantava, e cantava bem acima da média dos “cantores” que esquentavam os bancos sacros. Por fim, com Manoel Mota Neto e Pedro Luís, insignes e extintos jornalistas que passaram – e sofreram, teimosamente sofreram – pelas ruas de Peruíbe, aprendi a sintetizar o fato em notícia escrita. Acabei-me por fazer-me “jornalista” e me reuni à plêiade de “vagabundos” que, na visão comum do peruibense incomum, não trabalha, mas “só vive de futricar a vida dos outros nos jornais”.

Evidente que a intelligentsia insurgente incomodava o status quo, notadamente dentre os mandatários municipais.

A memória me remonta uma história vivida por mim quando ainda adolescente. Sob os auspícios do eterno mestre Mário Cabral e da querida e saudosa professora Jacira Marques Corrêa ganhei um concurso encetado pelos governos do Estado e Federal cujo tema era escrever uma redação sobre o Dia da Árvore que se dá em 21 de setembro de cada ano. Dentre os escolares municipais, o meu trabalho se achou vencedor e recebeu moção da Câmara. No dia da entrega da homenagem, os vereadores reunidos e constrangidos, porque meu texto tinha muito de crítica ao que os loteadores já vinham fazendo com nossas árvores centenárias, ao invés de me chamarem para ler a redação, jogaram-na de mão em mão, até que sobrou para um vereador analfabeto, que até das aulas do Mobral havia fugido, lê-la.

Eu precisava de incentivo e apoio para ir defender Peruíbe em Santos, no certame regional. Ninguém ajudou, e eu não pude ir. Tudo era muito mais difícil naqueles tempos. E o despeito prevaleceu. E ali talvez tenha nascido o meu vaticínio.

Hoje relembro estas e outras histórias com tristeza. Os últimos 30 anos faz de minha esposa – e meus filhos – testemunhas do quanto chorei e do quanto sofri, do quanto fui perseguido e ameaçado até de morte, do quanto colecionei processos muitas vezes totalmente infundados, mas que eram prontamente recebidos pelo Judiciário local que tem uma surpreendente história de subserviência ao Executivo e ao Legislativo porque depende de favores como o uso de próprio municipal, de funcionários e de verbas do erário municipal para poder funcionar.

E tudo isso para quê? Para ver o final da vida chegando célere, para poder repetir o epitáfio de nosso maior poeta Dalmar Americano quando escreveu que “neste sepulcro profundo / onde não penetra o mal / quem muito sofreu no mundo / aqui descansa afinal”?

Teria acaso Dalmar razão ao profetizar que estaria hoje esquecido num túmulo qualquer ali na Necrópole de São João Batista quando escreveu seu soneto “Crepúsculo” no qual declarou: “Lutei por um ideal a vida inteira / em procura de um sonho inacessível. / Lutei por ti, ó arte inatingível, / por ti, que tu somente és verdadeira. / Mas meus passos falharam na carreira, / ante os abruptos choques do impossível. / Negou-me a sorte a glória imarcescível, / levando-me a esperança derradeira.”; para terminar conferindo que “Hoje, cansado, o coração deserto, / vendo a morte a acenar-me assim tão perto, / sinto no peito um dissabor profundo: / O nada de morrer sem ter vivido / e terminar num túmulo esquecido / como um pária, entre os párias deste mundo.”?

Sim. É isso. Dalmar Americano da Costa, o médico-poeta, bom baiano e melhor peruibense que eu e você que agora me lê, sabia do que estava dizendo. O seu poema “Fim” é a derradeira reflexão solitária de um artista que viveu no meio de um povo que já àquela época era sobremodo ingrato, invejoso, despeitado, corrupto e corrompido: “Quando se chega a velhice, / vendo-se falhado tudo / por que tanto se lutou; / quando o ideal se extinguiu, / e na fé se foi traído, / e no amor desiludido, / tendo-se tudo perdido, / desenganado de tudo, / é que tudo se acabou.”.

E por que é assim? A resposta é simples: Peruíbe não tem história, não tem sociedade. Os “quatrocentões” de Peruíbe, a saber, os caiçaras, foram expulsos, dizimados, consumidos e, à medida que foram morrendo, foram levando nos caixões toda poesia, todo charme, toda motivação cultural que deve reger uma cidade e sua gente. Veja: não estou falando de geografia. Isso Peruíbe ainda tem. Ainda! Mas até mesmo muito da geografia original foi modificada pela especulação imobiliária e seus gananciosos autores. O retrato deste fato dantesco é que hoje conta-se nos dedos representantes das famílias que estavam em Peruíbe não há cem, duzentos anos atrás, mas ali em 1959, quando Peruíbe nascia política e administrativamente. Por pressuposto, Peruíbe tornou-se uma cidade de aventureiros. (Não é atoa que é conhecida como “curva de rio”).

O reflexo latente dessa situação infelizmente perene, ou que vá durar pelo menos ainda umas duas ou três gerações vindouras, está no fato de que cobram de mim e de meus colegas jornalistas ainda persistentes no município uma imprensa livre, que critica e que não esconda a “verdade”, mas não há quem tire do bolso algumas moedas que sejam para ajudar a sustentar a imprensa que tanto reclamam seja “livre”.

Este é um assunto que tenho debatido com alguma insistência neste espaço cibernético e nos onde ainda me é possível publicar como impresso em papel. Claro que sei que também esta luta me é inglória. Mas eu insisto nela até para dar vazão ao meu aborrecimento de hoje, aborrecimento este muito motivado por esta circunstância também.

Há dois pensamentos dominantes na cabeça daqueles que esperneiam reclamando uma imprensa independente: o primeiro já foi discorrido aqui: “eu não vou dar dinheiro para este jornalista vagabundo; se ele quer dinheiro, que trabalhe!”. O segundo, também discorrido aqui, é velado, porque regido pela inveja e pelo despeito por parte daqueles que até que gostariam de saber escrever, mas não sabem. E se assombram com a facilidade com que o jornalista escreve e – mais ainda: catalisa a notícia, embora não deem o braço a torcer!

É muito provável que se uma décima parte dos meus “amigos” e seguidores nas redes sociais atendesse ao meu clamor de me ajudar, seja com uma doação ou com a contratação de um anúncio, eu não estive agora deste modo aborrecido. Sim! Para quê, afinal, a hipocrisia? Eu também preciso de dinheiro para viver, e preciso que pelo menos uma décima parte dos meus leitores entendam que o que faço também é trabalho.

Deem um passeio pelo meu blogue e verão quantos e quais são os meus anunciantes. O número deles está igual os dedos que conto em uma de minhas mãos! A estes sou muito agradecido, até porque sei que o investimento deles é mais para ajudar do que para esperar retorno propriamente dito. Mas o lance é este: ajudar!

Dia destes um incauto navegante do Facebook ironizava o fato de eu pedir doações de R$ 1, R$ 5, R$ 10… A este meu chamado o “amigo” insinuou que eu havia chegado ao ponto de “pedir esmolas”, para não perder o mote: “vá trabalhar!”.

Há uma diferença gritante entre pedir esmolas e solicitar doações, ainda que pequenas. Não é possível que não percebam isso. A cultura “donate” nos Estados Unidos é de tal forma prestigiada que muitos bilionários de lá doam verdadeiras fortunas todos os anos, e não só para projetos sociais ou para fundações ou organizações não governamentais, mas também para projetos pessoais que eles acreditam que vá dar certo ou que vá ser útil para a sociedade, ainda que num futuro distante. Claro que nem todos dão certo, mas eles doam assim mesmo. Ainda que seja um só dólar. Mas doam. O mesmo acontece em países desenvolvidos como Alemanha, Inglaterra, Japão e até Israel.

O Brasil está no contraponto. O empresário brasileiro prefere gastar com mulheres, com orgias, com bebidas, com festas. Não que o americano, o alemão ou o japonês não goste disso também. Gosta. Gosta e gasta também em lazer e entretenimento. Mas não se esquece de ajudar. Já o brasileiro…

Muito evidente que se eu tivesse uma carteira de anunciantes substancial, não precisaria “pedir esmolas”. Mas não tenho. Pelas razões aduzidas e já debatidas, não tenho.

E olha que não adianta sequer eu dizer que seu investimento numa publicidade comigo lhe custará menos que um mísero real por dia! Assim mesmo você não fará seu anúncio comigo, nem tão pouco atenderá o meu clamor de me dar uma “esmola”. Sabe por quê? Não sabe? Você finge não saber, mas eu sei. Afinal, você continua achando que meu ofício não é trabalho. Continua achando que eu sou vagabundo. E – quer saber mais? – você quer mesmo é que eu me dane!

Afinal, já pensou você sendo só mais um dos que poderiam me fazer um milionário da noite para o dia se pensar na gama e no alcance de possibilidades que a internet propicia hoje em dia só por fazer uma campanha de anúncio comigo? Não. É claro que você prefere que eu continue aborrecido. Hoje e sempre.

E essa história de Peruíbe também, de “nossa cidade” e estas coisas lhe soa como românticas demais para o seu gosto. Peruíbe? História? Progresso? Desenvolvimento? Você quer é mais! Peruíbe que se exploda!

Washington Luiz de Paula

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