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A medida do amor

Caminhando célere para cumprir nossos 30 anos de casados em junho próximo, eu e Dona Neide, minha esposa, estamos fazendo parte de um seleto grupo de afortunados que se amam e que conseguiram vencer todos os revezes da vida – e do relacionamento a dois – para alcançarmos as nossas bodas, agora de pérolas. Infelizmente seleto. Sim, porque vivemos dias em que as pessoas se casam em progressão aritmética, ao passo que se divorciam em progressão geométrica.

Assim, pelo caminhar desse andor das uniões conjugais descompassado pelo ritmo frenético das separações por quaisquer causas, podemos dizer que já contemplamos o fim do casamento enquanto instituição divina e até civil, e, por conseguinte, a família pede concordata, e pelo que se vê está em regime pré-falimentar.

Como explicar, pois, uma e outra coisa? Como entender os raros casais de ontem que hoje ainda comemoram suas bodas de ouro – e até de diamantes? E como dar sentido a um casal que enquanto namora vê tudo cor-de-rosa e tem tudo como sendo mil maravilhas e que, logo depois que se casa se decepciona com o parceiro ou com a parceira, e, às vezes nem termina a viagem de lua-de-mel, e já se separa?

Sinceramente gostaria de dissertar sobre isso longe dos paradigmas bíblicos e religiosos para não dizerem que o caminho que encontro é simplório demais para dar razão ao sentido do amor – do verdadeiro amor – que é a força motriz que faz duradoura uma relação a dois, seja em que circunstância for. Fosse assim, recomendaria uma simples leitura da premissa que Paulo de Tarso reduziu nos 13 versículos do capítulo 13 de sua primeira carta à igreja fundada por ele em Corinto, na Grécia, e o assunto estaria encontrado termo.

Também não gostaria de invocar a ciência, seja a médica através da psicologia, seja a de relações humanas, como a sociologia para dar azo à compreensão de que as pessoas neste mundo estão, a bem da verdade, cada vez mais egoístas, mais cheias de si, se achando mais independentes, e por isso entendendo terem o direito sobre seus destinos, suas escolhas, suas vontades, seus rumos, ainda que estas decisões unilaterais firam – às vezes com gravidade emocional e física – parentes, amigos, colegas, semelhantes.

Não! A vida é bem mais simples que todas estas discussões acadêmicas, sejam de ordem teológica ou científica.

Ouvi de um conceituado comunicador – e não vou citá-lo nominalmente, para não dizerem que estou influenciado por tendências religiosas – que a medida da prosperidade que hoje está tanto em moda o requerer e o buscar, sejam a que preço for; a medida deste “enriquecimento” não está nos bens materiais que as pessoas possuem, busquem ou venham a possuir. Mas sim, toda prosperidade é medida pela felicidade.

Desta sorte, é muito mais possível que um casal seja feliz vivendo em uma palhoça no meio de um pedaço de terra fincado num longínquo lugar longe da “civilização”, onde tenha que acordar às três da manhã para dar de comer à criação, depois ir ordenhar a vaquinha, entrar, preparar o café colhido ali mesmo no quintal, chamar as crianças para caminharem léguas para chegarem à escola (ás vezes embaixo de chuva), e depois irem os dois para preparar o campo para um novo plantio – ou para a colheita, até que o final do dia chegue e eles possam descansar em paz, do que um casal “da cidade”, com sua vida atribulada – sem paz! –, onde o tempo nunca dá para nada – e todo o dinheiro que ganham muito menos!

É muito mais próspera – e feliz – uma família que vive num barraco em meio à favela, mas que não sente falta de nada, que nunca reclama de nada, e que procura ter tudo aquilo que está ao alcance de suas condições de aquisição. E dai vem o “milagre” de vermos famílias de imigrantes nordestinos aqui em São Paulo, ganhando dois ou três salários mínimos, mas que conseguem juntar dinheiro para viajarem todo ano para visitarem seus parentes no nordeste, levando-lhes sempre muitos presentes!

E tal e qual numa equação matemática, que é justa e exata, a felicidade está para a prosperidade na mesma proporção que o amor está para a felicidade, independente, no entanto, daquela. Assim, não é preciso ser próspero no sentido moderno da palavra para amar e ser amado, mas é necessário ser “próspero”, no sentido de plenitude de realização de vida, ainda que humilde, para experimentar a verdadeira medida do amor.

Anos atrás passei de carro pela baixada do Glicério, na capital de São Paulo, e tive que parar no semáforo. Naqueles 20 ou 30 segundos eu vivi uma tremenda experiência de vida ao contemplar uma família reunida embaixo do viaduto. Distribuídos em cima de panos rotos e pedaços de papelão, um casal com seus três filhos e ainda seu cachorro de estimação, brincavam e sorriam de tal forma como se todas as aflições do mundo que decerto viviam cotidianamente não existissem. Ali descobri que eles, talvez por terem descoberto a exata medida do amor, eram felizes, ao passo que eu, envergonhado de mim mesmo, descobri não ser mais que um ingrato. Ingrato para comigo mesmo, para com minha família, e para com Deus.

Quem é mais próspero, então? Quem é mais feliz? Quem ama mais e é mais amado? Será que os poderosos deste mundo sabem mesmo o que é ser feliz e o que é amar?

Perguntaram a um dos reis da agricultura brasileira que vive rodeado de belas mulheres, mesmo no auge de seus quase 90 anos de idade, como é que ele se sentia sabendo que aquelas mulheres estavam ali por causa de seu dinheiro e não gostavam dele, e ele respondeu exatamente como alguém que só cultiva os prazeres efêmeros desta vida: “Eu adoro camarão. Se eu vou num restaurante comer camarão, eu pago e como. Não estou nem ai se o camarão gosta de mim.”.

O ponto chave me parece este: a banalização do amor, ou a vulgarização daquilo que as pessoas pensam que é amor. “Amar” enquanto a virilidade do homem está a cem por cento, “amar” enquanto os seios e o bumbum da mulher permanecem durinhos e as estrias e flacidez não aparecem em suas pernas, “amar” enquanto o cartão de crédito está operante e seu limite parece não ter mais fim, “amar” assim é muito fácil. O mundo todo parece “amar” assim! Mas a medida do amor não está enquanto as situações são favoráveis, seja emocional, física ou financeiramente para seu companheiro ou para sua companheira.

O amor – o verdadeiro amor – se mede e se prova pela adversidade da vida que pode acometer a mim e a você a qualquer momento. Ninguém está imune das incertezas da vida! Aprendamos com Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida”.

Você, homem, experimente cortar o cartão de crédito e não mais fazer as vontades de sua mulher e você começará a vislumbrar o termômetro do “amor” que ela sente por você oscilar. Você, mulher, comece a engordar desmedidamente, tenha ataques cada vez mais histéricos de TPM, deixe cada vez mais visíveis os traços de seu natural envelhecimento, e você começará a ver a balança do “amor” que ele sente por você cair na mesma proporção que o ponteiro da balança sobe!

Agora, se o termômetro do “amor” não oscilar quando vier o desemprego e começar a faltar  comida na despensa; se a balança do “amor” não apontar para baixo quando o tempo e o passar da idade não se lhe for lá muito pródigo, então você terá posto à prova o verdadeiro amor, agora sem aspas.

A explicação para o grande número de separações de casais e de famílias se desmoronando hoje em dia está no egoísmo das pessoas não suportarem a ideia de passarem vicissitudes, de sofrerem intempéries ao lado de quem quer que seja, quando a “culpa” sempre é do outro. Disso resulta irremediavelmente na frustração de um ou de outro lado, seja do homem ou da mulher, que tinha mesmo forte esperança de que seu amor fosse mesmo correspondido na mesma proporção com que amava.

Amava? Como assim? Não ama mais? Lamento informar, mas se “não ama mais” é porque nunca amou de verdade. E – infelizmente – nunca soube o que é o amor. Por quê? Porque o amor nunca acaba. Porque o amor tudo suporta. Tudo sofre. Não busca seus interesses. Tudo espera. O amor nunca falha. Passou disso não era amor: era paixão. Era feitiço.

Vai se separar? Separou? Seu marido não é mais aquele que você conheceu quando solteira? Sua esposa perdeu o encanto dos tempos de namoro? Lamento informar, mas você foi provado pela medida do amor sem medida, e foi reprovado. Você nunca amou!

Washington Luiz de Paula

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