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Jornal independente. Por que não sê-lo? Mas como sê-lo?

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Não conheço nenhuma mídia neste país que seja independente. Digo independente no sentido lato, etimológico do termo. Não há. Jornais, revistas, rádios, TVs, todas demandam de verbas, sejam públicas ou privadas, que determinam que norte vão seguir. Mesmo os grandes. Pasmem! Mesmo a Globo, a Veja, a Folha de S. Paulo, Estadão… Para comprovar isso, basta vocês verem as páginas de jornais e revistas Brasil afora, ouvirem as vinhetas nas rádios, e assistirem as inserções publicitárias nas redes de televisão, e vocês verão e ouvirão que Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, este e aquele outro ministério, e os governos municipais, estaduais e federal recheiam os bolsos dos donos de jornais e revistas e dos concessionários de rádios e televisões com campanhas milionárias.

Se é assim para a grande imprensa, que poderíamos dizer para os pequenos veículos de comunicação das também pequenas cidades brasileiras? Pois é. Nas cidades pequenas, como é o caso de Peruíbe, o jornalista que se aventura a ter seu próprio jornal, revista, rádio ou TV não é mais que um Don Quixote moderno, que teima investir seu Rocinante contra os moinhos de ventos de seu ideal, para o qual pouquíssimas pessoas se importam (e, geralmente as que se importam apreciam a coragem do plumitivo, mas não tem dinheiro para ajuda-lo a ser manter idealista).

Falo de cátedra. Conheço isso. Minha esposa que me acompanha há 30 e poucos anos é testemunha das lágrimas, dos suores e até do sangue derramado por conta de minha teimosia de pretender remar sozinho o imenso e pesado barco do ideal – e pior: contra a correnteza. E agora que intento retornar com a publicação impressa do que tenho publicado ciberneticamente há mais de dois anos através de meu blogue, eis que me ponho novamente diante do aforismo levantado pelo falecido escritor Oswaldo Herrera, quando este fazia parte de minha equipe de trabalho anos atrás: “Eu trabalho porque quero; porque quero comer!”.

Sim, minha gente; jornalista também come! Também bebe! Também tem direito a uma visitinha ao menos quinzenal ao Jabá, ou a uma pizzaria ou restaurante da cidade, preferencialmente com a família! E também precisa se divertir indo ao cinema, à praia, parando no quiosque para tomar uma ou duas com os amigos…

E, por conseguinte, jornalista não é vagabundo! É isso. E talvez nisso esteja o cerne da questão que faz com que poder público, e empresários e comerciantes da cidade pouco ou nada se interessem no fomento ao trabalho dos órgãos de imprensa da cidade. Afinal, para uma sociedade arcaica (no mal sentido) e conservadora – hipocritamente conservadora – como a de Peruíbe, cantar, pintar, escrever, dançar, encenar, ou mesmo praticar um esporte é coisa de quem não tem o que fazer. É coisa de vagabundo!

Depois, quando o jornal é distribuído, quando o programa de rádio ou TV vai ao ar, ficam perguntando por que é que tal veículo não critica mais, não cobra mais, não defende mais, como se o periodista se tornasse assim, de um átimo, seu escudeiro, guarda-costas, advogado e juiz.

Por não ter mais o que fazer nesta cidade que tantos preferem que continue assim, há empresários e políticos em Peruíbe que gastam média de R$ 100 por dia em cerveja, cachaça e cigarro, mas não são capazes de se abster um só dia por mês daquilo que de sobejo sabem fazer mal para sua saúde para destinar R$ 100 para ajudar a manter um veículo de comunicação da cidade o mais próximo possível da independência tão decantada, tão reclamada, tão cobrada, mas nada apoiada. E olha que muitos nem precisariam deixar de gastar o que já gastam consigo mesmos sob a desculpa de que é direito deles terem seus lazeres, o que é uma verdade. Não precisam!

Desafiei dia destes um empresário da cidade e me dizer se não teria 100 comerciantes na cidade com disposição para “bancar” uma imprensa independente, doando cada um R$ 100 por mês. Ele confessou que tem. Tem 100 e tem mais. Tem 100 que pode dar R$ 100, mas quem não pode dar R$ 100, pode dar R$ 50 ou mesmo R$ 30 por mês. Tem mesmo! Mas, onde estão eles? Doce ilusão de quem acredita que se disporiam estes a ajudar. Se não têm a capacidade e a coragem de se unir para se cotizarem em enfeitar a cidade durante o Natal ou mesmo durante a semana de aniversário da cidade; se não compram uma biriba que seja para ajudar a prefeitura para que os fogos de final de ano tenham alguns segundos a mais, vocês acham que vão dar dinheiro para esses jornalistas “vagabundos”? Vão esperando… Eu que tenho não mais que meia dúzia de valentes amigos e comerciantes de Peruíbe anunciando em me blogue, pagando uma mixaria vez ou outra, que o diga. Eu que o diga…

Os empresários de Peruíbe estão todos escondidos atrás da desculpa do medo de serem perseguidos porque colaboram com um jornal que eventualmente critique a administração pública. E, se têm medo é porque estão fazendo algo errado. A lógica é simples: quem não deve, não teme. E o Direito e a Justiça estão ai para defender quem venha a ser perseguido por não ter cão, mesmo que ter cão, de repente, passe a ser obrigação constitucional.

Que ninguém se iluda em achar que anuncia neste ou naquele veículo porque vai lhe dar retorno de publicidade. Isso está longe de ser alcançado pelas mídias locais. Uma coisa é você anunciar na TV Globo, outra coisa é você anunciar na TV Vale da Artes. Na Globo você gasta milhões numa campanha e tem o retorno de dez, cem vezes tanto. Na Vale das Artes você anuncia para ajudar a manter um trabalho sério do qual você e sua cidade tem mais é que se orgulhar. Só isso. Não passa disso. E o exemplo vale para as rádios comunitárias e também para os jornais locais. Cada qual e todos têm os seus papéis social de relevante utilidade para o município, dentre os quais destaco aquilo que pondero ser o mais importante: o de estarem registrando, dia a dia, a história de Peruíbe para a posteridade!

Então, até que a mentalidade daqueles que fazem parte do que tenho chamado de “empresariado mesquinho” da cidade mude para se perguntar o que é que eles podem fazer por sua cidade e não o que sua cidade pode fazer por eles, parafraseando Kennedy; até que os políticos entendam que o que ganham de salário pago para o povo é para ser gasto e investido em benefício do próprio povo, e não para gáudio e satisfação de seus desejos pessoais mais íntimos e secretos, eu sigo tropicando e cantando – totalmente DEPENDENTE de qualquer verbazinha que seja, venha de onde vier, consciente de que, como dizia a canção antiga, “quem tropica também cai”. E não cai, uai?

É isso. Simples assim.

Washington Luiz de Paula

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