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Caso Toninho do Frango: Bode expiatório ou boi de piranha?

Wikipedia
Quadro "O Bode Expiatório" de William Holman Hunt

Teci uma analogia em recente artigo de minha lavra onde eu perguntava se o vereador peruibense que acabou enrolado em “pouca merda”, como diziam os antigos, se ele seria, ou se não estaria sendo usado para ser um “frango expiatório” (veja aqui).

Por ter usado a figura da “expiação” de forma deslocada, incorreta, é preciso que eu corrija o texto, ainda que para fazê-lo tenha que me socorrer de outro texto onde me permita explicar a diferença entre duas expressões regularmente usadas, uma mais no meio religioso, a outra no seio da política.

Por decorrência da explicação que se segue, Antonio Francisco Ricardo – o Toninho do Frango – não poderia ser jamais o “frango expiatório” proposto naquele artigo; mas pretendo considerar que bem pode ele ser sim um “boi de piranha” nesta história exageradamente cabulosa, que, por ter tomado o rumo das histerias compartilhadas por pouquíssima representação popular na Câmara, e também por não menos pouquíssimas manifestações nas redes sociais, podemos elevá-la à categoria do folclore, desde já designando o frango no lugar do boi para fazê-lo, então, não o boi, mas o “frango de piranha”.

Não. Antes que se apressem uma ou outra voz louca a querer também jogar sobre mim uma espiga de milho, é preciso que eu diga que não defendo a impunidade de quem quer que seja. Toninho do Frango errou, e tem que pagar pelo seu erro, a começar por exercer um gesto de humildade em declarar-se culpado perante seus pares na Câmara, perante a Justiça, e perante a opinião pública. A restituição aos cofres públicos do apropriado indevidamente é a consequência imediata de sua autodeclaração de culpa. Já a penalização política, como o próprio nome diz, demanda um processo que, quero crer, os vereadores que compõem a CEI que investigará as denúncias formuladas pela ex-faxineira de Toninho do Frango, tida e havida como fantasma no seu tempo, mas agora bem de carne e osso, saberão conduzir com celeridade. Notadamente por estarmos em ano eleitoral.

Assim, “frango expiatório” é uma coisa; “frango de piranha”, outra, bem diferente.

A expressão “bode expiatório” origina-se dos tempos pré-cristãos, onde as pessoas, para expiar suas culpas e pecados, levavam até o sacerdote um animal este que era lançado fora do arraial, e solto na natureza, deixado à sua própria sorte, quando inevitavelmente acabava devorado pelas feras do campo. A celebração do “bode expiatório” se dava, entre o povo hebraico durante as cerimônias do Yom Kippur, ou o “Dia da Expiação”. Durante a cerimônia, o sacerdote impunha suas mãos sobre o bode, e confessava sobre ele os pecados de todo o povo hebreu. E, após isso, com aquela “carga” de pecados sobre si, o bode era solto para ficar vagando até que encontrasse o seu destino fatal, quando então, acreditava-se, aqueles pecados que o bode “carregava” eram dissipados.

Na Teologia Cristã, a cerimônia do “Dia da Expiação” está representada na crucificação de Jesus Cristo, e a escolha do bode para expiar os pecados é, portanto, uma figura do que viria acontecer com o próprio Cristo, algumas centenas de anos mais tarde. Destarte, Jesus Cristo passou o ser o último e o mais que necessário “bode expiatório”, por ter levado ele mesmo sobre si, ali na cruz do Calvário, não só os pecados daqueles “que eram seus e os seus não o receberam” (cf. João 1.11), mas também os meus, os seus e os de toda a humanidade.

Vê-se, então, que comparar Antonio Francisco Ricardo a Jesus Cristo é um absurdo que retórica alguma justifica, não deixando de ser um sacrilégio que merece o meu pedido de perdão público – e minha penitência – por tal escorregadela teológica e cristã.

Por resumo, o dicionário ensina que um “bode expiatório” seria uma pessoa escolhida para levar sozinha a culpa por uma calamidade, um crime ou qualquer outra situação negativa que geralmente não tenha cometido.

E a complementação da explicação para o termo, no Wikipédia, é curiosa: “a busca do bode expiatório é um ato irracional de determinar que uma pessoa ou um grupo de pessoas, ou até mesmo algo, seja responsável de um ou mais problemas sem a constatação real dos fatos”.

Por isso, Toninho do Frango não é um “bode expiatório” nesta história, ou, como queiram um “frango expiatório”. Mas, seria ele então um “boi de piranha”, ou ainda como queiram um “frango de piranha”? Eu poderia apostar que sim.

A expressão “boi de piranha” tem origem genuinamente nacional. Nasceu no meio do pantanal mato-grossense, ou entre as fazendas de Goiás, quando os tocadores do gado se viam numa situação em que tinham que atravessar a boiada pelo meio de um rio infestado de piranhas, que todos sabemos ser um peixe carnívoro, agressivo e voraz. Eles decidiam abater um dos animais, geralmente um já velho ou doente, para atirá-lo ao rio. Assim, enquanto as piranhas se “distraiam” em devorar o animal sacrificado, era possível atravessar o rio com o restante da manada, sem outros ou maiores riscos.

Ora, Toninho do Frango não está velho, nem está doente, ao que eu saiba. Também como já dissemos não é burro no sentido de ser tonto. Antes, ele é, deveras, muito esperto! Mas bem que ele pode ser (ou estar sendo) mesmo o “boi de piranha” neste ocaso de governo liderado pelo imperador Gilson Bargieri, e quando a transição se aproxima a passos bem mais rápidos que a fome das piranhas.

Por curioso também, o Wikipédia define que “boi de piranha” “pode designar uma situação onde um bem menor e de pouco valor é sacrificado para que em troca outros bens mais valiosos não sofram ameaça”. E arremata: “Pode designar também o ato de alguém se sacrificar para livrar outra pessoa de alguma dificuldade”.

Diante disso, o que lhes parece, nobres e pacientes leitores?

Eu respondo: a despeito de dois ou três paladinos terem se levantado pedindo a cabeça de Toninho do Frango sobre uma bandeja, como se isso fosse resolver todos os problemas de Peruíbe e de seu povo, há um personagem que deve estar se deleitando com toda esta situação; e este não é outro que o próprio vereador Antonio Francisco Ricardo.

Se seu sacrifício representasse, como que num passe de mágica, o desvendar de todas as mazelas que este governo muito certamente cometeu e tem cometido enquanto esteve (e enquanto está) no Poder, e não só o desvendar, como também o dissipar de todas as mazelas político-administrativas encetadas, seria sim Toninho do Frango o Cristo da vez. Mas, não.

O fato de ele não esboçar outra reação que poderia nos levar a crer no quanto está (ou estaria) sofrendo com todas estas acusações, e, de resto, com as espigas de milho que podem tê-lo atingido, dá-nos a entender que ele está é sentindo cócegas com as mordiscadas das piranhas, até porque pode estar ganhando – e bem e bastante – para se travestir de nuvem a tapar os olhos dos ensandecidos e ensandecidas de plantão.

Pois é. A minha tese é esta: Para Toninho do Frango, que até dia destes era líder da prefeita (se é que não é ainda), o bordão do funck da vez é: “enquanto os cachorros latem, a tropa passa”.

Oxalá os nossos olhos estejam prontos para enxergar por detrás desta analogia, tal e qual Shakespeare enxergou, de que “há algo de podre no reino da Dinamarca”, bem mais do que pode imaginar toda loucura de alguns, toda nossa “vã filosofia”.

Washington Luiz de Paula

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