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Fraude: Síndrome da derrota

Ganhar uma eleição é fácil. Perder, muito mais. Ora, quem pode querer se conformar em ver que a resultado da eleição não lhe foi favorável, e que, principalmente, lhe trouxe apenas umas migalhas de votos? Ninguém. E não tem essa de dizer que “afinal, o que vale é participar”, pois a mágoa da derrota sempre fica…

Se fizermos uma análise fria da situação, contudo, veremos que tudo não passa de mero capricho humano. Participar de uma eleição (para ganhá-la) é obra da própria vaidade que quer por à prova o nível de seu reconhecimento perante o povo. É por isto que se investe tanto na indústria eleitoral. E as loucuras começam a acontecer.

Numa eleição há aqueles candidatos que se dão a todos e de qualquer modo em troca do voto. Vende-se a casa própria, o carro novo, larga-se o trabalho, rapa-se poupança, se gasta três dúzias de sapatos, alguns litros de saliva, fica-se tenso (e por isto doente). Tudo isso para quê? Para perder a eleição. E nada mais natural, porque se não, como caber tanta gente na Câmara?…

Mas o pior é o inconformismo de ter tido tão poucos votos. “Roubaram-me”, começam a dizer. “Houve fraude”, dizem outros. E assim segue-se o resultado uma série de murmurações que vão acabar em Jerusalém.

No caso específico de Peruíbe, onde 217 candidatos a vereadores participaram efetivamente das eleições, e onde, também, foram anulados apenas 338 votos, o que equivale a 2,19% dos votos válidos apenas, a síndrome da derrota atingiu nada mais, nada menos do que 208 candidatos. Sim, porque os nove eleitos não têm de que reclamar!

Todos se acham no direito de querer pedir recontagem dos votos, já que suspeitam que seus votos foram anulados injustamente. Assim, permita-me fazer uma conta (e eu também fui candidato, e derrotado!) que divide os votos nulos pelos derrotados (338 por 208), o que dá pouco mais de 1,5 votos para cada um. Ora, com 1,5 votos eu não me elegeria, nem nenhum outro chegaria aos 605 votos que teve o nosso campeão Roberto Gaiofatto, nem aos 338 do vice, Raldes de Almeida Pereira! Querer encontrar o voto da esposa que não apareceu, pois, na urna que estava na seção onde ela votou (e isto acabou acontecendo comigo também!) não é mais do que uma aventura ao país do descabimento, porque se perdeu a eleição e pronto, perdeu-se a eleição.

Pedir recontagem de voto é procurar pelo em ovo. O negócio agora é bola pra frente que atrás vem o ladrão. Demais, é só trabalhar pra comprar novamente a casa própria, o carro novo, um par de sapatos e pastilhas Valda (para a garganta).

Washington Luiz de Paula

Publicado na Edição 0 – Ano I – Jornal “Acontece”, de 23 de novembro de 1988
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